Ratinho se pronunciou pela primeira vez após fala polêmica durante programa no SBT
O apresentador Ratinho negou que tenha ofendido a deputada federal Erika Hilton. Em entrevista ao portal Metrópoles, ele defendeu sua afirmação, mas elogiou a deputada. O apresentador inclusive voltou a dizer que ela “não é uma mulher”.
Ratinho afirmou que é contra uma mulher trans ser representante das mulheres. “O que eu argumentei é que eu não a vejo como mulher, e acho que para presidir a Comissão da Mulher na Câmara seria necessário ser uma mulher de verdade”, afirmou.
O apresentador também não excluiu a possibilidade de conversar com Erika Hilton. De acordo com Ratinho, a intenção não foi ofendê-la e aproveitou a situação para pedir desculpas.
“Em nenhum momento falei mal de trans. Transfobia é você tratar mal o outro. E eu jamais fiz isso. Vou processar todos que me chamaram de transfóbico ", completou.
Posição do SBT
O SBT se pronunciou na tarde desta quinta-feira (12) sobre as declarações feitas por Ratinho contra Erika Hilton. Ao comentar o fato de a parlamentar ter sido eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmera dos Deputados, o apresentador afirmou que não a considera uma mulher.
Em nota, a emissora afirmou que repudia qualquer tipo de discriminação e preconceito, que são o oposto dos princípios e valores da empresa. “As declarações do apresentador Ratinho, expressadas ao vivo ontem em seu programa, não representam a opinião da emissora”, destacou.
A nota ainda afirma que a direção do SBT está analisando a situação e “tratará do tema internamente a fim de que nossos valores sejam respeitados por todos os colaboradores.”
O que aconteceu
Ratinho fez declarações consideradas transfóbicas contra a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) durante o Programa do Ratinho, exibido pelo SBT na noite desta quarta-feira (11). Ao comentar o fato de a parlamentar presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados do Brasil, o apresentador afirmou que não a considera uma mulher e chegou a se referir a ela no masculino.
Durante o programa, Ratinho questionou a escolha de Erika Hilton para a presidência da Comissão e disse que o cargo deveria ser ocupado por alguém com características biológicas femininas, como útero e menstruação. “Não achei muito justo, com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? Ela não é mulher, ela é trans”, declarou.
Em seguida, ele acrescentou: “Não tenho nada contra trans, mas se tem outras mulheres… Mulher para ser mulher tem de ser mulher. Eu até respeito todo mundo, comissão de defesa dos direitos da mulher, defendo quem tem comportamento diferente, tá tudo certo”.
Aos aplausos da plateia, o apresentador continuou com as críticas. “Mulher para ser mulher tem que ter útero, precisa menstruar, tem de ficar chata três ou quatro dias. Vocês pensam que a dor do parto é fácil? Tem que fazer o [exame] Papanicolau. Eu sou contra, devia deixar uma mulher ser presidente da comissão”, declarou.
Erika pede que ministério suspenda programa do Ratinho por 30 dias
Deputada federal alega que o apresentador cometeu crime ao vivo
A deputada federal Erika Hilton (PSol-SP) solicitou que o Ministério das Comunicações suspenda a exibição do Programa do Ratinho, exibido pelo SBT diariamente, por 30 dias. Ela alega que o apresentador Carlos Roberto “Ratinho” Massa cometeu crime ao vivo após uma série de comentários transfóbicos na edição da última quarta-feira (11/3).
Além da suspensão, Erika Hilton também pede a abertura de processo administrativo contra o SBT. No programa, Ratinho fez um discurso crítico à eleição da parlamentar como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
Na representação, a deputada argumenta que as declarações de Ratinho foram discriminatórias pois não se limitaram a críticas políticas ou a um debate institucional sobre a atuação dela na Câmara. Segundo Erika, os comentários se configuraram como “negação explícita de sua identidade de gênero” e “afirmação reiterada de que ela não seria uma mulher”.
A parlamentar sustenta que a conduta do apresentador é criminosa, segundo o artigo 20 da Lei 7.716/89, que tipifica a prática e a incitação ao preconceito e à discriminação transfóbica, conforme interpretação do Supremo Tribunal Federal para crimes raciais.
“Ao introduzir o tema, o apresentador passou a questionar a legitimidade da eleição da parlamentar para a presidência da referida comissão, afirmando que não considerava “justo” que o cargo fosse ocupado por uma mulher trans”, afirma o documento ao qual o Metrópoles teve acesso.
No documento, Erika destaca uma aspa de Ratinho no programa: “A Erika Hilton. Ela não é mulher, ela é trans”. “A afirmação foi feita de maneira categórica e reiterada ao longo da exposição, estabelecendo como eixo central do comentário a negação da identidade de gênero da parlamentar”, diz a parlamentar.
As solicitações de Erika Hilton ao Ministério das Comunicações
- Instauração de Processo Administrativo: requer a abertura imediata de um processo administrativo sancionador contra o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão S/A) para apurar o abuso no exercício da liberdade de radiodifusão e a violação de princípios constitucionais;
- Suspensão Cautelar do Programa: pede a suspensão imediata da programação do “Programa do Ratinho” por um prazo inicial de 30 dias, podendo ser prorrogado até a conclusão do processo administrativo. Ela argumenta que essa medida é necessária para evitar a reiteração da conduta discriminatória;
- Requisição de Provas: Solicita que a emissora seja obrigada a fornecer a cópia integral da gravação do programa exibido em 11 de março de 2026, além de dados de audiência e métricas de alcance, inclusive nas plataformas digitais;
- Aplicação de sanções e cassação da Concessão: ao final do processo, ela pede a aplicação das penalidades previstas na Lei nº 4.117/1962. O documento menciona explicitamente que as sanções podem chegar à cassação da concessão da emissora, conforme previsto na Constituição Federal.
No programa exibido no SBT, Ratinho defendeu que a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher deveria ser exercida por “uma mulher de verdade”. Ao longo do comentário, o apresentador ainda disse que “mulher para ser mulher tem que ter útero” e “tem que menstruar.”
“Ao longo de toda a fala, a identidade de gênero da Representante foi tratada como elemento central de desqualificação de sua atuação política. A narrativa construída pelo apresentador baseia-se na repetição de afirmações destinadas a negar a condição feminina da parlamentar e a sustentar que mulheres trans não poderiam ser consideradas mulheres para fins de participação em espaços institucionais voltados à defesa dos direitos das mulheres”, sustenta a representação.
O documento aponta que tanto o apresentador quanto a emissora de televisão têm responsabilidade compartilhada, sendo o SBT corresponsável por ter produzido, editado e veiculado em rede nacional o conteúdo considerado discriminatório e abusivo.
Metropoles e Itatiaia
