De janeiro a maio, PF apreendeu 3.524 unidades de medicamentos trazidos ilegalmente do exterior, contra 886 em todo o ano passado. Risco para a saúde é alto
Apreensões de medicamentos para emagrecimento de origem estrangeira em Minas Gerais põem em evidência a explosão do contrabando desses produtos no estado. Só na última semana, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu mais de 200 canetas emagrecedoras vindas do Paraguai. Ontem, a entrada de novo lote foi bloqueada.De acordo com a Polícia Federal (PF), o número de doses recolhidas somente nos cinco primeiros meses deste ano já representa um salto de quase 300% em comparação com 2025 inteiro. Segundo a corporação, nos dois períodos, foram registrados 51 flagrantes que motivaram as apreensões, cujo valor aproximado chegou a cerca de R$ 2,8 milhões. As forças de segurança combatem os crimes tipificados, enquanto especialista alerta sobre os riscos da circulação de substâncias sem qualquer controle sanitário.
Os dados da PF dão a real dimensão desse crescimento vertiginoso. Enquanto em todo o ano de 2025 foram recolhidas 886 unidades de emagrecedores injetáveis no território mineiro, as apreensões de janeiro a maio desde ano somaram 3.524 canetas – um aumento de 297,74%. Caso se mantenham no atual patamar, as médias mensais projetam alta ainda maior para este ano. Foram 73,8 canetas apreendidas por mês ao longo de 2025, contra 704,8 mensais neste ano, considerados os números até maio. O prejuízo financeiro milionário acumulado nos 51 flagrantes computados em dois anos, por sua vez, evidencia o alto valor agregado e o forte apelo comercial dessas substâncias no mercado paralelo.
O mapa das 4.410 apreensões da corporação entre janeiro de 2025 e maio deste ano mostra que o Triângulo Mineiro e a Região Metropolitana de Belo Horizonte são as principais rotas de entrada ou distribuição do produto. Uberaba lidera o ranking de capturas, com 2.112 unidades apreendidas. Em seguida vêm as apreensões feitas pela Superintendência Regional, na capital, com 1.237 unidades. Divinópolis, no Centro-Oeste do estado (632), Uberlândia, no Triângulo (159), Montes Claros, no Norte de Minas (141), Varginha, no Sul (103) e Ipatinga, no Vale do Aço (26) completam o mapa do cerco policial aos emagrecedores ilegais no estado.
Paralelamente, a atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) nas estradas que cortam o estado também ajuda a ilustrar o tamanho do desafio logístico para frear o contrabando. Embora a instituição não possua um banco de dados que filtre especificamente as canetas emagrecedoras, o balanço geral de medicamentos de todos os tipos retirados de circulação aponta para o mesmo cenário de explosão do mercado ilegal. De janeiro a dezembro do ano passado, foram recolhidas 548 unidades de fármacos irregulares em Minas. Já de janeiro a maio de 2026, o número disparou para 3.036 unidades – um acréscimo de 454,01% em relação aos 12 meses de 2025. A média mensal o ano passado é de 45,6 apreensões, contra 607,2 neste ano, considerados os números computados até maio.
RISCOS À SAÚDE
O avanço do mercado ilegal e a busca por resultados rápidos no emagrecimento acendem o alerta de especialistas. O foco atual do contrabando e da manipulação clandestina é a tirzepatida, um medicamento injetável semanal, princípio ativo do Mounjaro. Conforme a endocrinologista Christianne Leal, ao contrário de outros emagrecedores famosos como a semaglutida e a liraglutida (análogos do GLP-1), que são moléculas biológicas complexas e impossíveis de serem reproduzidas por manipulação, a tirzepatida tem outra natureza. “Ela é um peptídeo que pode ser reproduzido, e existe uma brecha na lei do Brasil que permite realmente fazer esses medicamentos, que são patenteados”, afirmou.
O risco, segundo ela, está ligado principalmente à manipulação e falta de controle de qualidade sobre o que está sendo injetado. “O maior problema é saber se realmente essa molécula é a original, se é uma molécula que as farmácias magistrais estão importando desses países que já quebraram a patente, se realmente tem a dose certa e se não tem nenhuma contaminação que possa causar um mal à saúde da população”, esclareceu a endocrinologista.
Christianne, que também é professora-adjunta do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que o tratamento correto exige uma introdução escalonada e gradativa ao organismo. Inicia-se com uma dose de 2, mg por semana, mantida obrigatoriamente por quatro semanas apenas para adaptação do corpo. Após esse período, conforme explicou a especialista, passa-se para a dose mínima eficaz de 5mg, podendo subir de 2,5mg em 2,5mg, sob supervisão, até o limite de 15mg. “O problema é que, às vezes, para economizar, a pessoa já começa com uma dose maior e pode ter um efeito colateral, porque não foi orientada”, alertou.
De acordo com a especialista, a tirzepatida é considerada potente e completa, porque possui um mecanismo de ação duplo. “Ela atua como um receptor do GLP-1 e do GIP, dois hormônios que atuam no hipotálamo, no centro da fome, para inibir o apetite”, destacou ela. No entanto, isso pode trazer complicações se não for monitorado. “Como retarda o esvaziamento do estômago e dá uma sensação maior de saciedade, um efeito esperado, mas que pode ter repercussão, é o refluxo. Além de má digestão, sensação de empachamento, náuseas, diarreia ou constipação”, listou Christianne.
SEM TRÉGUA
As apreensões não param. Ontem, a Receita Federal apreendeu canetas emagrecedoras, anabolizantes e outras mercadorias estrangeiras, durante fiscalização conjunta com a PRF na BR-262, em Juatuba, na Grande BH. Os medicamentos estavam sendo transportados sem o acondicionamento adequado nem comprovação fiscal por um casal que seguia de Foz do Iguaçu, no Paraná, para Belo Horizonte. A dupla foi presa.
Na última semana, apenas em um intervalo de 24 horas, a PRF apreendeu mais de 200 ampolas de medicamentos emagrecedores em Minas. Na quinta-feira (28/5), um homem, de 43 anos, foi encaminhado a uma delegacia da Polícia Federal, após ser pego conduzindo um veículo com carga de medicamentos para emagrecimento de origem paraguaia, na BR-381, na altura do km 735, em Carmo da Cachoeira, no Sul do estado.
Conforme a PRF, a operação foi feita nas imediações da Praça de Pedágio, quando os policiais deram ordem de parada a uma Van Sprinter de cor branca. Durante a abordagem, os agentes localizaram diversas mercadorias de origem estrangeira, sem a documentação fiscal regular. Os objetos estavam guardados no bagageiro e em compartimentos internos do veículo. Entre eles havia câmeras de vigilância, perfumes, pilhas, controles remotos, cabos e carregadores de celulares, brinquedos e 24 aparelhos de TV Box, o que configura a prática de descaminho.
Segundo a corporação, ainda foram encontradas 78 ampolas de medicamento para emagrecimento à base de tirzepatida, cuja introdução e comercialização são proibidas no território nacional, conforme regulamentação da Anvisa. O transporte da carga configura o crime de contrabando. O medicamento estava em meio às demais mercadorias e armazenado em caixas descaracterizadas, para dificultar a localização durante uma eventual fiscalização.
Segundo apuração da PRF, as mercadorias foram embarcadas em São Paulo, na região do Brás, e teriam como destino a cidade de Ipatinga, no Vale do Rio Doce. O motorista foi encaminhado, junto com o medicamento, para a Polícia Federal em Varginha, no Sul do estado, para os procedimentos legais cabíveis. O veículo e as demais mercadorias foram encaminhados para a Unidade da PRF em Perdões, na mesma região, onde se encontram à disposição da Receita Federal.
Um dia antes, outro condutor, de 36, foi preso em flagrante pela PRF durante uma fiscalização na BR-381, em Carmópolis de Minas, no Centro-Oeste. No veículo, um Hyundai Tucson, foi encontrada grande quantidade de mercadorias de origem estrangeira introduzida irregularmente no país. A abordagem ocorreu por volta das 20h no Km 597 da rodovia, quando os policiais fiscalizaram o veículo que seguia de Foz do Iguaçu (PR) para Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. No automóvel estavam o condutor, sua esposa e o filho do casal.
Os policiais solicitaram a abertura do porta-malas para conferência dos equipamentos obrigatórios e localizaram diversas mercadorias de origem estrangeira. Questionado pelos agentes, o motorista informou que os produtos haviam sido adquiridos no Paraguai. Entre os itens estavam celulares, perfumes, vinhos e cigarros eletrônicos. Já no painel do carro, em um compartimento escondido, foram encontradas 188 ampolas de medicamentos para emagrecimento, também à base de tirzepatida, além de 10 ampolas de anabolizantes. Ainda havia produtos à base de canabidiol, tablets e hidratantes.
A PRF constatou os crimes relacionados a falsificação ou comercialização irregular de medicamentos, descaminho e contrabando. O motorista foi preso e encaminhado à Delegacia da Polícia Federal em Divinópolis para os procedimentos cabíveis. O veículo foi apreendido e permanece à disposição da Polícia Federal.
TIPIFICAÇÃO DOS CRIMES
Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), a comercialização, importação, distribuição ou venda de medicamentos trazidos ilegalmente do exterior, especialmente sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), podem configurar diferentes ilícitos de natureza penal, administrativa e sanitária.
As condutas podem ser enquadradas em delitos graves, como o de contrabando, quando há importação de mercadoria proibida, e crimes contra a saúde pública, relacionados à falsificação, corrupção, adulteração ou venda de produtos destinados a fins terapêuticos ou medicinais sem registro; além de outros tipos penais eventualmente aplicáveis, como associação criminosa, quando há atuação organizada.
“As penas previstas variam conforme o enquadramento legal. Também podem ser aplicadas sanções administrativas, como apreensão dos produtos, interdição de estabelecimentos e multas, conforme a legislação sanitária vigente”, informou a Polícia Civil em nota. Para frear o avanço desse comércio, os órgãos de fiscalização mantêm investigações focadas não apenas nas rodovias, mas também no monitoramento de substâncias anunciadas pela internet e ofertadas em clínicas e estabelecimentos irregulares no estado.
