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Dinheiro só não basta: brasileiros 50+ veem a longevidade como projeto além da reserva financeira

Publicada em: 22/06/2026 06:52 -

Para muitos dos que já passaram dos 50 anos, a longevidade deixou de ser apenas uma questão financeira. Embora o planejamento econômico continue sendo uma preocupação relevante, cresce o entendimento de que envelhecer com qualidade de vida envolve um conjunto de fatores que incluem saúde física, mental e emocional, relações sociais, propósito, lazer e até uma vida sexual ativa.

A história da influenciadora fitness Gina Lapertosa, de 64 anos, ilustra essa nova forma de enxergar o envelhecimento. A ex-professora de educação infantil transformou-se em uma das maiores referências nacionais de atividade física e saúde na maioridade, inspirando diariamente mais de 1 milhão de seguidores em seu perfil no Instagram.

A relação com o movimento começou cedo, incentivada pelo pai ainda na infância. Ele costumava lembrá-la: “Comece agora, porque lá na frente vai ficar mais fácil para você dar continuidade”. Gina seguiu o conselho e praticou natação por décadas. A grande virada ocorreu aos 55 anos, quando foi apresentada ao crossfit por sua filha.

“Estava entrando no climatério, então resolvi fazer a reposição hormonal e vitamínica e alinhar isso ao esporte, porque ele te desafia a ter metas, o que é ótimo para essa fase da minha vida”, conta Gina. Hoje, além dos treinos diários de crossfit, ela aderiu ao hyrox — modalidade de alta intensidade que intercala corrida com exercícios funcionais.

Longe de buscar o status de celebridade na internet, a influenciadora foca seu trabalho em um propósito claro de conscientização. “Meu objetivo não é virar celebridade, mas mostrar que é possível envelhecer com saúde, movimento e alegria. Não estou dizendo que todo mundo tem que fazer crossfit, mas sim que todos devem se exercitar. Se você tem um novo dia, então pode vivê-lo do jeito que quiser. E é preferível fazer boas escolhas para não se arrepender depois”, conclui.

 

Economia da longevidade

 

Essa nova percepção dita os rumos do mercado. De acordo com a pesquisa “Mercado Prateado: consumo dos brasileiros 50+ e projeções”, conduzida pelo data8 - hub de pesquisa, inteligência de mercado e inovação sobre a revolução da longevidade - os brasileiros 50+ já respondem por 35% de todo o consumo em saúde no país, movimentando R$ 247 bilhões em 2024 dentro de um mercado estimado em R$ 700 bilhões. A tendência é de crescimento acelerado. Em 2044, esse grupo deverá responder por metade de todos os gastos em saúde no Brasil, movimentando R$ 650 bilhões em um setor que poderá alcançar R$ 1,3 trilhão.

Mais do que consumir serviços médicos, porém, os chamados "prateados" têm investido em prevenção e autocuidado, como mostram os indicadores do estudo listados abaixo:

  • 63% realizam check-ups médicos anuais regularmente;
  • 46% mantêm e seguem uma dieta balanceada no dia a dia;
  • 43% monitoram e controlam o peso corporal de forma contínua;
  • 39% praticam atividades físicas de maneira regular.

Para Lívia Hollerbach, uma das coordenadoras da pesquisa, os dados revelam uma mudança importante na forma como essa geração encara o envelhecimento. "Quase sete em cada 10 pessoas passaram a priorizar mais a saúde no cotidiano, reforçando que longevidade e autocuidado se tornaram ativos centrais para esse grupo. Não se trata apenas de mais prateados consumindo, mas de um consumo mais diversificado e frequente”, evidencia.

 

Saúde virou investimento

 

O estudo ainda mostra que os brasileiros 50+ gastam, em média, 75% mais com saúde do que a população mais jovem. Enquanto o consumo mensal per capita dos menores de 50 anos é de R$ 96, entre os prateados o valor chega a R$ 233. Grande parte desse gasto está concentrada em planos de saúde, medicamentos e suplementos, categorias que representam 79% da cesta mensal de saúde dos brasileiros. Entre os 50+, o consumo de remédios e suplementos é ainda mais elevado.

Mas especialistas observam que a busca por qualidade de vida tem ultrapassado os cuidados médicos tradicionais. Segundo o geriatra Eduardo Canteiro Cruz, diretor administrativo da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a pandemia contribuiu para ampliar a consciência desse público sobre a própria saúde. "Desde então, houve um aumento do interesse, da consciência e da vigilância deste grupo para com a própria saúde, especialmente no que se refere à saúde mental. A preocupação com envelhecer bem, isto é, com independência e conservando a autonomia, tem sido algo cada vez mais constante na prática clínica do geriatra", afirma.

De acordo com o médico, essa mudança é perceptível em hábitos do dia a dia, como a redução do tabagismo, a maior presença de pessoas mais velhas nas academias e o aumento do consumo de suplementos nutricionais voltados ao bem-estar e à manutenção da performance física.

 

Muito além do dinheiro

 

Se antes o planejamento financeiro era visto como a principal ferramenta para garantir uma velhice tranquila, hoje a visão é mais ampla. "Cresce o entendimento de que patrimônio envolve saúde, propósito e relações sociais, e isso com certeza afeta o planejamento financeiro do indivíduo. Atualmente, pode ser um equívoco acreditar que apenas a preparação econômica basta. Além do dinheiro, é essencial cuidar de outras áreas da vida”, realça Marcos Ferreira, especialista em longevidade, pós-carreira e mercado de seguros.

A avaliação é compartilhada pelo geriatra Eduardo Canteiro Cruz. Segundo o médico, fatores como vínculos afetivos, lazer, atividade física, vida sexual e convivência social exercem influência direta sobre a saúde e a satisfação com a vida. "Embora a renda seja algo bastante importante para a manutenção da subsistência, as relações sociais e afetivas são mais significativas para a sensação de estar vivo e de pertencimento que, em última instância, dão significado à vida depois de muitos anos vividos."

Cruz destaca ainda que estudos já demonstram os efeitos negativos da solidão sobre a saúde humana. "Cada vez mais compreendemos que o isolamento social apresenta efeitos nocivos sobre a saúde cardiovascular, a cognição e o estado psicológico. Claramente percebe-se que viver conectado a um grupo familiar ou de amigos cria uma oportunidade de vivenciar a segunda metade da vida de maneira muito distinta daqueles que estão solitários", endossa.

 

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