Vendas de tadalafila crescem 70% em dois anos e uso sem indicação médica preocupa especialistas
Levantamento mostra alta contínua na comercialização do medicamento para disfunção erétil no país
As vendas de tadalafila, medicamento usado no tratamento da disfunção erétil, cresceram 70% em dois anos no Brasil. Os dados foram repassados com exclusividade à reportagem de O TEMPO pela Close-Up International Brasil, agência de dados do Canal Farmacêutico, que reúne todas as farmácias e drogarias do país. O volume comercializado saltou de 16,3 milhões de unidades em maio de 2024 para 27,7 milhões em maio de 2026, alta de 11,4 milhões de doses vendidas no período. O avanço, segundo especialistas, reflete tanto a maior facilidade de acesso ao tratamento quanto uma mudança na forma como os homens encaram a própria saúde sexual.
O crescimento não foi pontual: entre 2024 e 2025, as vendas subiram 29,7%, com acréscimo de 4,8 milhões de unidades; já entre 2025 e 2026, a alta foi ainda maior, de 31,1%, equivalente a mais 6,57 milhões de doses comercializadas. Para o urologista Maxmillan Alkimin, especialista em reposição hormonal e professor do Hospital Universitário Ciências Médicas de Minas Gerais, o salto tem explicação multifatorial. “É a combinação de genéricos mais baratos, telemedicina facilitando a prescrição e a queda do tabu em falar sobre o assunto”, afirma o médico.
A aceleração entre os dois períodos chama atenção dos especialistas. Segundo Alkimin, o movimento não se explica apenas por fatores de mercado. “A aceleração contínua não bate com efeito passageiro de mercado — indica que os homens estão encarando o tema com mais naturalidade e procurando tratamento antes, inclusive de forma preventiva”, avalia.
O aumento expressivo no consumo, no entanto, não significa necessariamente que a disfunção erétil esteja mais frequente entre a população masculina. “Não necessariamente. Vem misturado: parte é acesso facilitado, e parte é prevalência real subindo por sedentarismo, obesidade, diabetes e estresse crônico”, pondera o urologista, que também cita a redução do preconceito em torno do tema como fator de peso para a busca por tratamento.

Uso sem prescrição alerta especialistas
A popularização do medicamento, contudo, acende um alerta entre médicos: o uso por conta própria, sem avaliação médica, pode mascarar problemas de saúde mais graves. “Mascarar diagnóstico é o principal problema. A disfunção erétil às vezes é o primeiro sinal de um problema cardiovascular, diabetes ou testosterona baixa. Também há risco grave de interação com nitratos”, explica Alkimin.
Por isso, o especialista reforça a importância de procurar um urologista antes de iniciar o uso da tadalafila, especialmente em homens de meia-idade. “A queixa pode ser porta de entrada para investigar coração, hormônios e metabolismo. Em homens de meia-idade, muitas vezes ela aparece antes de um evento cardiovascular maior”, diz o médico.
Uso do medicamento na academia
Outra tendência observada por Alkimin é o uso da tadalafila entre frequentadores de academia que não apresentam disfunção erétil, na expectativa de melhorar o desempenho nos treinos. Para o urologista, porém, trata-se de um mito. “Não existe evidência de ganho de força, resistência ou hipertrofia. O que existe é a sensação de ‘congestão’ pelo efeito vasodilatador, além de um fator cultural e estético”, afirma.
O especialista alerta que esse uso indiscriminado, sem indicação médica, também traz riscos à saúde. Entre eles, queda de pressão perigosa, principalmente quando combinado a pré-treinos estimulantes, mascaramento de problemas hormonais reais e o desenvolvimento de dependência psicológica para o desempenho sexual sem necessidade clínica. “É preciso entender que a tadalafila é um medicamento, não um suplemento. Todo uso deveria passar por avaliação médica prévia”, conclui Maxmillan Alkimin.
O tempo




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