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Violência doméstica se repete para duas em cada três vítimas

Publicada em: 08/07/2026 06:49 -

Estudo do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que a repetição das agressões marcou a maior parte dos atendimentos registrados em 2024 e reforça o desafio de interromper o ciclo da violência doméstica no país

 

Duas em cada três mulheres atendidas em unidades de saúde após sofrerem violência doméstica em 2024 relataram que aquela não havia sido a primeira agressão. O dado integra o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), e evidencia que a maior parte das vítimas chegou aos serviços de saúde após enfrentar episódios repetidos de violência dentro do ambiente familiar ou em relações afetivas.

 

O levantamento, baseado em notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, aponta que a reincidência esteve presente em 66,2% dos casos com resposta válida.

 

Ao longo de 2024, o sistema de saúde registrou atendimento a 186.177 mulheres vítimas de violência doméstica. Desse total, 100,8 mil informaram que já haviam sido agredidas anteriormente, o equivalente a 66,2% das notificações com resposta sobre reincidência. Na prática, isso representa cerca de 276 mulheres por dia que chegaram aos serviços de saúde após sofrerem novas agressões.

Outras 51,4 mil vítimas, ou 33,8%, disseram que aquele havia sido o primeiro episódio de violência. Em 33,8 mil registros, não foi possível obter essa informação.

Os dados mostram que a violência doméstica, na maior parte das vezes, não acontece de forma isolada. As notificações revelam um padrão de repetição das agressões, indicando que muitas mulheres permanecem expostas à violência por longos períodos antes de conseguirem chegar aos serviços de saúde. Para os pesquisadores, a recorrência reforça a importância da identificação precoce dos casos e da atuação integrada da rede de proteção.

A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, afirma que romper esse ciclo continua sendo um dos maiores desafios no enfrentamento da violência contra as mulheres.

"Quando as mulheres procuram ajuda, frequentemente já estão em uma fase de escalada da violência", afirma. Segundo ela, os episódios ocorrem, em grande parte, dentro de relações afetivas e familiares, o que torna mais difícil interromper as agressões.

O Atlas também aponta que os registros de violência atendidos pelo sistema de saúde representam apenas parte da realidade brasileira. Muitas vítimas deixam de procurar atendimento médico ou de denunciar os agressores por medo, dependência financeira, ameaças ou dificuldades para acessar os serviços de proteção. Dessa forma, os números podem estar abaixo da dimensão real do problema.

As informações apresentadas no levantamento foram obtidas a partir das notificações registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

 O banco de dados reúne informações preenchidas por profissionais de saúde sempre que atendem vítimas de violência, permitindo acompanhar o perfil das ocorrências e subsidiar políticas públicas voltadas à prevenção e ao atendimento das mulheres.

Neste ano, o governo federal anunciou novas medidas para fortalecer a proteção às vítimas de violência de gênero. Entre as ações estão iniciativas do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, além de propostas para criar o Cadastro Nacional de Agressores, ampliar as possibilidades de afastamento imediato do agressor, endurecer medidas contra autores que continuam ameaçando as vítimas e reduzir a burocracia para acelerar a concessão de medidas protetivas.

Os resultados do Atlas da Violência mostram que a reincidência permanece como uma das principais características da violência doméstica no Brasil. Ao revelar que 66,2% das mulheres atendidas já haviam sofrido agressões anteriores, o estudo reforça a necessidade de ampliar ações de prevenção, fortalecer a rede de acolhimento e criar mecanismos capazes de interromper a violência antes que novos episódios ocorram.

*Estagiária sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza  / Correio Braziliense

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