A fotografia mais emblemática da final da Copa do Mundo foi feita quase duas décadas antes do apito inicial no MetLife Stadium. Em dezembro de 2007, Lionel Messi, então um garoto de 19 anos em ascensão no Barcelona, participou de um ensaio para o calendário beneficente da Fundação Barcelona, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do diário esportivo catalão Sport.
Em uma das imagens, o jogador eleito oito vezes melhor do mundo aparece dando banho em um bebê de cinco meses dentro de uma pequena banheira de plástico improvisada no vestiário do Estádio Camp Nou. O menino se chamava Lamine Yamal. No domingo, às 16h, os dois disputarão o mesmo troféu, um defendendo a hegemonia da atual campeã Argentina, outro liderando a tentativa da Espanha de conquistar o bicampeonato.
A coincidência só ganhou dimensão muitos anos depois. A família de Lamine, moradora de Mataró, havia sido sorteada para participar da campanha social. O fotógrafo Joan Monfort procurava fugir da tradicional pose entre atleta e criança e decidiu criar uma cena doméstica. O plano quase fracassou. "Messi era muito tímido. Nem sabia como pegar o bebê. Tivemos de ajudá-lo. Aos poucos, ele foi relaxando e tudo aconteceu naturalmente", recorda Monfort. O ensaio terminou como tantos outros. As fotografias ilustraram o calendário de 2008 e desapareceram dos holofotes.
A imagem permaneceu esquecida até a Eurocopa de 2024. Naquele ano, Mounir Nasraoui, pai de Lamine, decidiu publicá-la nas redes sociais com uma legenda rapidamente viralizada depois do título continental da Espanha contra a Inglaterra, em Berlim: "O começo de duas lendas", escreveu.
Em poucas horas, o mundo descobriu: o bebê fotografado ao lado de Messi era justamente o adolescente autor de um gol e de quatro assistências no tetracampeonato europeu. Houve boatos sobre montagem, fake news, inteligência artificial. Não era. O próprio fotógrafo Joan Monfort admitiu a veracidade do clique e jamais imaginou o tom profético. "É um milagre. É como se existisse uma fotografia de Michael Jordan dando banho em LeBron James quando era bebê", comparou o fotógrafo, ainda surpreso com a dimensão da imagem.
Lamine Yamal sempre tratou a fotografia com naturalidade e evita qualquer comparação com o argentino. "Meu ídolo é Neymar, mas Messi é o melhor jogador da história. Cada partida prova isso. Se alguém tem dúvidas, é poque está procurando por elas", costuma dizer ao ser questionado sobre a coincidência.
A admiração, no entanto, dá lugar à rivalidade quando a final da Copa do Mundo começar. Aos 19 anos, ele chega à decisão como o principal símbolo da renovação espanhola, enquanto Messi, campeão do mundo em 2022 e maior referência do século 21, tenta conduzir a Argentina ao bicampeonato consecutivo. Mais do que isso. O camisa 10 se tornará o primeiro jogador a iniciar três finais de Copa do Mundo consecutivas. Amargou o vice em 2014, levou o país ao tri em 2022 e pode bordar a quarta estrela em 2026.
Na Era Digital, a fotografia transforma o encontro em muito mais do que um duelo entre duas seleções. Ela humanizou e aproximou dois momentos da história do futebol separados por uma geração inteira. Em um evento recente da Adidas, patrocinadora de Messi, o craque elegeu o sucessor. "Há uma nova geração de jogadores muito bons, com muitos anos pela frente, mas se tenho que escolher um pela idade, pelo que fez até agora e pelo futuro que pode ter, escolho Lamine", aponta o maior artilheiro das Copas com 21 gols.
O esporte sempre cultivou a ideia da passagem do bastão, mas raramente ela foi retratada de maneira tão eloquente. Quando aquela fotografia foi produzida, Messi buscava o primeiro prêmio de melhor jogador do planeta. O cetro e o trono pertenciam ao brasileiro Kaká em 2007, o ano do clique. Cristiano Ronaldo era o número 1 em 2008, quando a imagem até então aleatório saiu no calendário.
Paralelamente, Messi sonhava com o título mundial. Havia sido reserva em 2006, na Alemanha, e havia conquistado o status de camisa 10 para a edição de 2010 na África do Sul. O primeiro dos oito prêmios de melhor do mundo só chegaria em 2009. A Copa tão aguardada por Messi demorou 15 anos a contar da foto com o bebê Lamine Yamal.
O primeiro duelo entre eles deveria ter sido em 27 de março, no Estádio Icônico de Lusail, no Catar. A Finalíssima, um tira-teima entre os campeões da Eurocopa e da Copa América foi cancelado devido à guerra entre os Estados Unidos e o Irã no Oriente Médio. Mas tal como a foto profético, o jogo entre Espanha e Argentina estava escrito nas estrelas.
No domingo, um defenderá o trono construído ao longo de quase 20 anos de carreira; o outro tentará inaugurá-lo. Há fotografias que registram a história. Outras esperam pacientemente que o tempo lhes dê sentido. A de Lionel Messi e Lamine Yamal encontrou o seu na maior partida oferecida aos devotos por essa religião chamada futebol — e sua maior expressão: a Copa do Mundo.
Correio Braziliense
