Apreensões dispararam mais de 16,2 mil vezes em três anos e se concentram na fronteira entre Brasil e Paraguai
As apreensões de canetas emagrecedoras pela Receita Federal cresceram mais de 16,2 mil vezes nos últimos três anos, saltando de apenas oito unidades em 2023 para 130.609 no primeiro semestre de 2026. A maior parte dos produtos foi interceptada no Paraná e em Mato Grosso do Sul, estados que fazem fronteira com o Paraguai.
Dados obtidos pela organização Fiquem Sabendo, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), mostram que o valor das cargas apreendidas chega a R$ 47 milhões.
A explosão das apreensões ocorreu em 2026. Apenas entre janeiro e junho, a Receita Federal confiscou 130.609 canetas emagrecedoras, número superior ao total registrado em todos os anos anteriores somados.
Tirzepatida domina apreensões
A tirzepatida foi, de longe, a substância mais apreendida no primeiro semestre de 2026, com 100.373 unidades, o equivalente a quase oito em cada dez canetas confiscadas no período.
O princípio ativo é usado no tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, da obesidade. Ela pertence a uma nova classe de medicamentos que imitam hormônios produzidos pelo intestino para controlar o apetite e a glicemia.
Na sequência aparecem:
Lipoless: 19.159 unidades, além de 2 kg da substância apreendidos em Mato Grosso do Sul;
Retatrutida: 7.834 unidades.
Em 2023, as apreensões se restringiam a apenas oito unidades de Mounjaro e semaglutida. Em 2024, o volume saltou para 2.823 unidades, impulsionado pela entrada de novos medicamentos no mercado clandestino, como Ozempic, tirzepatida e Zepbound.
O avanço ganhou força em 2025, quando a Receita apreendeu 32.911 unidades. Além da expansão da tirzepatida, surgiram nas apreensões substâncias como Lipoless e retatrutida, indicando uma diversificação do comércio ilegal.
Paraná concentra sete em cada dez apreensões
O Paraná lidera com ampla vantagem o ranking nacional, com 90.646 unidades apreendidas entre 2023 e o primeiro semestre de 2026. O estado também concentra o maior valor financeiro das apreensões no período: R$ 28,1 milhões.
Desse montante, 72.724 eram canetas de tirzepatida, princípio ativo comercializado em medicamentos como Mounjaro e Zepbound.
Na sequência aparecem Mato Grosso do Sul (10.060 unidades), São Paulo (7.401), Santa Catarina (5.412) e Distrito Federal (5.188).
Os dez estados com maior volume de apreensões (2023 ao 1º semestre de 2026):
Paraná (PR): 90.646 unidades
Mato Grosso do Sul (MS): 10.060 unidades
São Paulo (SP): 7.401 unidades
Santa Catarina (SC): 5.412 unidades
Distrito Federal (DF): 5.188 unidades
Goiás (GO): 3.062 unidades
Mato Grosso (MT): 2.859 unidades
Rio Grande do Sul (RS): 1.967 unidades
Minas Gerais (MG): 1.570 unidades
Ceará (CE): 1.111 unidades
A concentração das apreensões nos dois estados reforça o papel da fronteira com o Paraguai como principal rota de entrada desses produtos no país.
São Paulo concentra apreensões de maior valor
Embora tenha sido superado pelo Paraná em volume de apreensões em 2026, São Paulo desempenhou, ao longo da série histórica, um papel central na interceptação de medicamentos de alto valor agregado.
Entre 2023 e o primeiro semestre de 2026, a Receita Federal apreendeu 7.401 unidades no estado, além de cargas registradas em quilogramas, reunindo praticamente todas as principais marcas e princípios ativos comercializados no mercado ilegal.
As primeiras apreensões ocorreram em 2023, com apenas cinco unidades de Mounjaro, avaliadas em R$ 25,6 mil.
Em 2024, o volume saltou para 1.872 unidades da mesma marca, acompanhado das primeiras apreensões de tirzepatida e Zepbound, elevando o valor das cargas para mais de R$ 5,5 milhões.
O pico ocorreu em 2025. Somente de Mounjaro foram apreendidas 6.504 unidades, avaliadas em R$ 11,5 milhões. Naquele ano, a Receita também passou a interceptar Ozempic, Retatrutida, Saxenda, Semaglutida e Lipoless, evidenciando a diversificação do mercado clandestino desses medicamentos.
Já no primeiro semestre de 2026, a tirzepatida tornou-se predominante, com 6.050 unidades apreendidas, enquanto o número de canetas de Mounjaro caiu para 576. Também foram confiscados lotes de Lipoless, Retatrutida, semaglutida e, pela primeira vez, Wegovy.
PRF apreende 46 mil canetas e ampolas em cinco meses
Os dados da Receita Federal acompanham as apreensões realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Entre janeiro e maio de 2026, a corporação apreendeu cerca de 46 mil canetas e ampolas emagrecedoras em rodovias federais, distribuídas em 311 ocorrências.
Assim como na Receita, o Paraná liderou o ranking da PRF, com 77 ocorrências e aproximadamente 17,5 mil produtos apreendidos. Em seguida aparecem São Paulo, com 11,9 mil unidades, e Mato Grosso do Sul, com aproximadamente 6 mil. Goiás e Rio de Janeiro completam a lista dos cinco estados com maior volume de apreensões.
10 estados com os maiores volumes de apreensão de canetas emagrecedoras pela PRF em 2026:
Paraná (PR): 17.472 unidades
São Paulo (SP): 11.865 unidades
Mato Grosso do Sul (MS): 5.952 unidades
Goiás (GO): 2.690 unidades
Rio de Janeiro (RJ): 1.757 unidades
Bahia (BA): 1.046 unidades
Rio Grande do Sul (RS): 998 unidades
Minas Gerais (MG): 806 unidades
Mato Grosso (MT): 786 unidades
Santa Catarina (SC): 505 unidades
A BR-116, que liga o Rio Grande do Sul ao Ceará, concentrou o maior número de apreensões. O maior flagrante ocorreu em maio, em Barra do Turvo (SP), quando policiais encontraram 4.432 ampolas emagrecedoras em uma única abordagem.
Segundo a PRF, as categorias “canetas emagrecedoras” e “ampolas emagrecedoras” só passaram a integrar o sistema de classificação da corporação em janeiro de 2026, razão pela qual não há série histórica anterior para esse tipo específico de produto.
Enquanto as canetas são comercializadas prontas para aplicação, as ampolas contêm o princípio ativo e exigem o uso de seringa para administração.
Os dados também foram obtidos pela Fiquem Sabendo, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
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