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Estudo associa uso excessivo da internet a estresse e irritação

Publicada em: 31/07/2026 06:22 -

O impacto do hábito em excesso na vida cotidiana dos usuários pode acarretar consequências graves à vida pessoal, sobretudo quando representa perda de controle no tempo gasto, dificuldade para se desconectar e prejuízos na rotina

 

 Uma pesquisa realizada por estudiosos da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, e publicada recentemente na revista Plos One, relatou a relação entre o tempo gasto on-line e os níveis de estresse, irritabilidade e procrastinação de outras atividades. Para o trabalho, os cientistas avaliaram dados de 900 adultos alemães que relataram ter jogado videogames, acessado pornografia, utilizado redes sociais ou ter feito compras on-line pelo menos uma vez no último ano.

 

A classificação do uso da internet foi feita com base no tempo de acesso, podendo ser considerado problemático, arriscado ou não problemático. Os autores avaliaram, sobretudo, o uso excessivo de aplicativos on-line.

 

Segundo os cientistas, o uso problemático da internet (UPI) é uma patologia definida pelo uso excessivo de aplicativos on-line, como jogos, apostas, pornografia, redes sociais e compras, a ponto de causar prejuízo funcional ou sofrimento. Pesquisadores teorizam que os indivíduos podem recorrer à internet para aliviar o estresse ou o mau humor, formando hábitos que se transformam em ciclos. A gravidade do UPI pode variar, sendo que os casos mais extremos causam negligência em outras áreas da vida.

Durante a avaliação, os voluntários responderam a um questionário, todos os dias, durante duas semanas. No documento, eles informaram o humor, se estavam estressados, se se sentiam tentados a usar a internet de forma problemática e o tempo que passaram online. A avaliação também mediu o prazer obtido por essa prática e se eles abriram mão de outras atividades para navegarem.

De acordo com os resultados, os voluntários que foram classificados como tendo uso problemático mais grave, e tinham o pior humor, eram mais estressados e passavam maior tempo navegando na internet e negligenciando outras áreas da vida. Segundo os cientistas, a tentação era o principal fator motivador para o acesso contínuo à rede, além disso, os sentimentos de prazer e alívio reforçavam a prática.

A psicóloga Regina Vera detalha que, na prática clínica, esse impulso é difícil de controlar porque a internet oferece recompensas imediatas e constantes. “Cada notificação, vídeo, mensagem ou atualização ativa mecanismos de recompensa do cérebro, gerando uma sensação de expectativa e prazer. Além disso, o acesso é extremamente fácil e está disponível o tempo todo, o que favorece um comportamento automático." A especialista adverte: "Muitas pessoas pegam o celular sem perceber, como resposta ao tédio, à ansiedade ou simplesmente por hábito. Não se trata apenas de falta de disciplina, mas de um padrão de comportamento que foi reforçado repetidamente ao longo do tempo”.

Estratégias de prevenção

Segundo Andreas Oelker, coautor do estudo, o trabalho explica que a sensação de tentação é o principal mecanismo que liga os estados emocionais ao uso problemático da internet no dia a dia. “Mais do que o estresse ou o humor em si, é o desejo momentâneo de acessar a internet que determina se as pessoas se envolvem em atividades on-line e experimentam consequências tanto gratificantes quanto prejudiciais.”

“Compreender por que indivíduos com risco de uso problemático da internet acessam a rede em momentos específicos é essencial para o desenvolvimento de melhores estratégias de prevenção e tratamento. Nossos resultados sugerem que ajudar as pessoas a reconhecer e lidar com momentos de tentação pode ser mais eficaz do que focar apenas no estresse ou no humor”, completou o coautor.

Os resultados do estudo confirmaram a hipótese dos pesquisadores de que o estresse diário, o humor e a tentação podem ser usados para prever o uso diário da internet por uma pessoa e, além disso, como esses fatores, por sua vez, afetam o prazer diário, o alívio e a negligência de outras atividades. Os pesquisadores enfatizam que nem todos os tipos de uso da internet têm consequências negativas, mas, sim, o uso problemático ou excessivo.

Izabelle Santos, psicóloga clínica e hospitalar do Hospital Anchieta, em Taguatinga, diz que, às vezes, o problema não é o tempo on-line, mas o conteúdo que é consumido. “O que conta é o impacto que esse uso tem na vida da pessoa. Hoje, a internet faz parte do trabalho, dos estudos e das relações sociais. Então, é natural que muitas pessoas passem várias horas conectadas." A profissional esclarece: "O sinal de alerta aparece quando existe perda de controle, dificuldade para se desconectar e prejuízos na rotina, como queda no rendimento, conflitos familiares, alterações no sono ou abandono de atividades importantes. Nem todo excesso é prejudicial, mas todo comportamento que compromete a qualidade de vida merece atenção”.

A psicóloga lista, ainda, os principais sinais de que a navegação online pode ter se tornado prejudicial . “As questões mais frequentes são dificuldade para interromper o uso da internet, procrastinação, redução da produtividade, alterações no sono, irritabilidade quando a pessoa não consegue acessar o celular e afastamento das relações presenciais. Também observo que muitos passam a utilizar a internet como uma forma de aliviar ansiedade, tristeza ou solidão. Quando ela se torna a principal estratégia para lidar com as emoções, é importante investigar o que está acontecendo.”

Estudos anteriores sugeriram que jovens com dependência da internet apresentam alterações na química cerebral que podem levar a comportamentos mais viciantes, e que esses efeitos eram evidentes em múltiplas redes neurais do cérebro, juntamente com aumento da atividade em partes do cérebro quando os participantes estavam em repouso.

 

Correio Braziliense

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