Dentre as alcoólicas, bebida é a mais consumida do país; setor reúne quase 2 mil cervejarias, mais de 56 mil marcas registradas e exportações recordes em valor
Nesta sexta-feira (07) é celebrado o Dia Internacional da Cerveja, a bebida alcoólica mais consumida do Brasil. O mercado cervejeiro brasileiro movimentou cerca de R$13 bilhões em consumo apenas no último ano. Além de beber, o Brasil também faz. Atualmente, o país segue entre os maiores produtores mundiais de cerveja, e ocupa o 3° lugar no ranking, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
O impacto do mercado cervejeiro aparece em toda a cadeia produtiva: agricultura, maltearias, fabricantes de vidro e alumínio, logística, supermercados, bares, restaurantes e turismo gastronômico. No Brasil, a cerveja ocupa um lugar de destaque em festas populares, encontros sociais, como o famoso churrasco de domingo, e nos mais diferentes tipos de eventos.
Transformações na indústria
A indústria cervejeira brasileira passa por uma fase de transformação. Dados oficiais do Anuário da Cerveja 2026, divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mostram que o Brasil encerrou 2025 com 1.954 cervejarias registradas, o maior número da série histórica iniciada em 2000.
O avanço, porém, foi de apenas 0,3% em relação ao ano anterior, sinalizando desaceleração depois de anos de forte expansão. Ainda assim, o número de estabelecimentos cresceu quase 4.800% em 25 anos. A presença da cerveja industrial e artesanal se tornou cada vez mais abrangente. O anuário da Cerveja aponta que há pelo menos uma cervejaria em 794 municípios brasileiros, o equivalente a 14,3% das cidades do país. Em média, o Brasil possui uma cervejaria para cada 108.794 habitantes.
Mercado da cerveja em Minas
A concentração regional continua forte. O Sudeste reúne 923 cervejarias, o que corresponde a 47,2% do total nacional. São Paulo lidera com 452 estabelecimentos, seguido por Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná. A capital mineira, além de polo gastronômico, reúne dezenas de bares especializados, brewpubs e festivais que ajudam a consolidar a imagem de Minas como um dos estados mais importantes da cultura cervejeira brasileira.
Mesmo com leve redução líquida no número de cervejarias registradas, 247, Minas Gerais continua sendo um dos principais centros cervejeiros do país. O estado aparece em quinto lugar em densidade cervejeira, com uma cervejaria para cada 90,3 mil habitantes, e concentra cidades tradicionalmente ligadas à produção artesanal, como Belo Horizonte, Nova Lima, Juiz de Fora e Gonçalves.
Mais rótulos e mais diversidade
Se o número de fábricas cresce mais lentamente, a diversidade de produtos continua avançando. O Brasil alcançou em 2025 a marca de 44.212 cervejas registradas, aumento de 2,4% sobre o ano anterior. O total de marcas chegou a 56.170, uma alta de 2,1%.
A média nacional é de 22,6 produtos por cervejaria, mas alguns pólos apresentam variedade muito superior. Belo Horizonte registra 761 produtos, enquanto Nova Lima soma 1.268 rótulos, um dos maiores números do país.
O crescimento do número de marcas ajuda a explicar a mudança de perfil do consumidor brasileiro, que passou a encontrar com mais facilidade estilos antes restritos a nichos especializados, como IPA, sour, stout, weiss e cervejas maturadas em barril. O movimento também impulsionou festivais cervejeiros, harmonizações gastronômicas e o chamado turismo cervejeiro.
Exportações batem recorde de faturamento
O comércio exterior trouxe um dos resultados mais expressivos do anuário. Em 2025, o Brasil exportou 315,5 milhões de litros de cerveja para 77 países diferentes. Embora o volume tenha recuado 5,1%, o faturamento alcançou US$ 218,3 milhões, o maior valor da série histórica e um crescimento de 6,9% em relação a 2024. O preço médio do produto exportado subiu de US$0,61 para US$0,69 por litro, indicando valorização da cerveja brasileira no mercado internacional.
O principal destino das cervejas brasileiras continua sendo o Paraguai, responsável por 62,3% das compras externas, seguido por Bolívia, Uruguai, Argentina e Chile. A América do Sul absorve 98,5% das exportações brasileiras de cerveja.
Paixão que se transforma em empreendimento
Para além dos bilhões movimentados pela indústria cervejeira, o mercado também é feito de histórias de empreendedores que começaram em casa, entre panelas e receitas experimentais. Em Belo Horizonte, cidade carinhosamente conhecida como “a capital dos bares”, uma dessas trajetórias nasceu no bairro Padre Eustáquio, na região Noroeste da capital. Ali funciona a MythicBeer, uma microcervejaria artesanal comandada pelo mestre cervejeiro Valadão, que transformou um hobby entre amigos em um negócio especializado em cervejas puro malte e bebidas artesanais.
A origem da empresa veio de pequenas produções caseiras feitas por ele e pelo seu ex-sócio Rafael. “A história da nossa empresa começou através da paixão pela cerveja entre dois amigos. A gente fazia cerveja em casa e queria levar para os nossos amigos experiências que desafiassem os sentidos e estimulassem a imaginação”, contou o empresário em entrevista à Itatiaia.
Embora o CNPJ da marca tenha sido aberto em 2017, o primeiro lote comercial da cervejaria ficou pronto em janeiro de 2018, data considerada pelo fundador como o verdadeiro nascimento da marca. “Começamos com uma panelinha que produzia 28 litros. Foi ali que aprendemos, erramos muito, acertamos e aprimoramos as receitas até dar o pontapé inicial no projeto”, lembra. O crescimento das cervejas artesanais em Belo Horizonte foi decisivo para a aposta no negócio. “O mercado estava vivendo um boom muito grande, e nós já começamos participando de eventos cervejeiros em Belo Horizonte e Nova Lima”, diz.
Hoje, a empresa opera em um galpão que precisou ser reformado para atender às exigências do Ministério da Agricultura. Segundo Valadão, a montagem da fábrica, concluída em 2022, exigiu um investimento de cerca de R$ 650 mil em equipamentos, adequações estruturais e instalação elétrica industrial. A microcervejaria trabalha atualmente com nove estilos de cerveja, além de uma bebida mista inspirada no drink Moscow Mule, e produz até 4 mil litros por mês em sua capacidade máxima.
O nome da marca também nasceu da busca por identidade própria. Depois de descartar referências ligadas a música e futebol, os sócios encontraram na mitologia o universo ideal para batizar os rótulos. De lá para cá, surgiram cervejas como Grifo, Górgonas, Quimera e, que mais recentemente, deram espaço a personagens do folclore brasileiro, como Saci, Cuca, Boitatá e Iara.
Desafios do ramo
De acordo com Valadão, a adaptação às mudanças de comportamento do consumidor é hoje um dos principais desafios da empresa. “O público mais jovem tem procurado mais drinks prontos, cervejas sem álcool, sem glúten e low carb [de baixa caloria]. A gente precisa estudar o mercado o tempo todo para não ficar para trás”, afirma o mestre cervejeiro.
Ainda segundo o proprietário, empreender no setor exige mais do que paixão pela bebida. “Além dos custos altos de produção e dos impostos, existe uma flutuação constante do mercado. É preciso estudar, inovar e se adaptar sempre.”
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