Entenda o que é a 'síndrome da pessoa necessária' e por que é tão difícil dizer não
Padrão de assumir problemas alheios e condicionar a autoestima à própria utilidade pode levar à sobrecarga e à ansiedade
Durante muito tempo, a belo-horizontina Alê Freitas, de 49 anos, acreditava ser uma qualidade estar sempre disponível para resolver problemas alheios. “Eu entendia como responsabilidade e competência ser aquela pessoa em quem todo mundo podia confiar. Eu era muito a pessoa do ‘deixa que eu resolvo.’ Se alguém tinha um problema, eu já queria encontrar a solução. Se alguma coisa podia dar errado, eu tentava me antecipar”, recorda-se a mentora em lideranças para mulheres e CEO da Anima Impacto Consultoria.
Acontece que, com o passar do tempo, ela percebeu que esse comportamento tinha um preço. “Eu acabava assumindo responsabilidades que não eram minhas, tentando controlar situações que não dependiam só de mim e, muitas vezes, ficando sobrecarregada porque parecia que tudo precisava passar pelas minhas mãos”, diz.
De certa forma, Alê passou pela chamada “síndrome da pessoa necessária”, termo popularizado nas redes, que descreve o padrão de assumir responsabilidades excessivas e condicionar a própria autoestima à utilidade que se tem para os outros. Embora não exista um diagnóstico reconhecido pela psicologia, esse quadro não o torna irrelevante, avalia o psicólogo clínico Gustavo Cury.
“Essa condição nomeia com precisão uma experiência que muita gente reconhece de imediato, e identificar um sofrimento já tem valor”, determina. Segundo o especialista, o fenômeno pode ser compreendido a partir de diferentes perspectivas, passando pela teoria do apego até chegar aos padrões aprendidos na infância. “O enquadramento mais honesto é que não se trata de uma síndrome, e sim de um padrão, que pode sim adoecer sob certas condições”, salienta.
Mas o que há por trás da necessidade de algumas pessoas se sentirem constantemente úteis?
Na resposta do da psicologia, raramente um comportamento tem causa única. Uma leitura possível vem da teoria do apego, de John Bowlby. “Ele descreveu o que chamou de cuidado compulsivo (compulsive caregiving), um modo de cuidar que deixa de ser escolha e vira uma necessidade quase automática, difícil de interromper”, começa o especialista.
Nesse caso, esse padrão aparece associado a um funcionamento em que a pessoa vive vigilante a sinais de perda e abandono. “Para algumas pessoas, tornar-se indispensável funciona como uma estratégia, em geral inconsciente, de manter o outro por perto”, aponta.
Outra hipótese pode ser compreendida a partir da teoria dos esquemas, de Jeffrey Young. Cury explica que os chamados “esquemas iniciais desadaptativos” são padrões de pensamento e comportamento que se formam na infância e na adolescência, a partir de experiências em que necessidades emocionais básicas (como segurança, aceitação e afeto) não foram atendidas de forma consistente.
“Uma vez formado, esse esquema se torna autoperpetuante, ou seja, passa a organizar por conta própria a maneira como a pessoa interpreta a si e ao mundo, e tende a se confirmar ao longo da vida. Dois esquemas descrevem quase literalmente esse perfil. O auto sacrifício, que é o foco excessivo em atender as necessidades dos outros à custa das próprias, e a subjugação, que é a supressão das próprias necessidades, emoções e vontades por medo de represália, raiva ou abandono”, identifica o especialista.
Um dos “sintomas” mais comuns dessa síndrome é a dificuldade em dizer “não.”
No caso de Alê Freitas, ela só percebeu que tinha esse obstáculo quando se viu muito cansada. “Eu dizia ‘sim’ mesmo quando não queria, assumia coisas que não precisava e depois ficava sobrecarregada. Também comecei a perceber que, muitas vezes, eu não estava ajudando. Eu estava tirando do outro a responsabilidade de resolver”, elabora.
De acordo com o psicólogo, existem alguns fatores que explicam essa dificuldade. “O ‘não’ tende a ser vivido como ameaça ao vínculo, porque no fundo existe o receio de que recusar signifique deixar de ser querido ou de pertencer. Delegar mexe diretamente com o autoconceito, já que, se o senso de quem a pessoa é está ancorado em ser ela quem resolve, abrir mão disso é abrir mão de uma parte de si. E deixar o outro se virar exige tolerar a própria angústia de não fazer, que para essas pessoas costuma ser mais desconfortável que o cansaço de fazer tudo, motivo pelo qual muitas não descansam e, quando param, ficam ansiosas”, realça.
Mulheres estão mais suscetíveis à síndrome?
Embora a percepção de que a “síndrome da pessoa necessária” seja mais comum entre mulheres seja recorrente, o psicólogo clínico Gustavo Cury ressalta que não há dados epidemiológicos que permitam afirmar isso.
“Mas a fundamentação cultural é sólida, inclusive do ponto de vista empírico. Há literatura consistente mostrando que a distribuição do cuidado é desigual entre os gêneros e que isso começa cedo”, explica.
Segundo ele, meninas são socializadas desde muito novas para serem mais atentas e cuidadoras. “Conceitos como carga mental e trabalho emocional nomeiam esse fardo pouco visível, o planejar, lembrar, antecipar e administrar que mantém tudo funcionando”, afirma. E quando o cuidado ocupa o centro da identidade, as consequências podem ser reais, como exaustão, adoecimento e apagamento das próprias vontades. “Às vezes a questão não é a mulher que precisa se tratar, mas o arranjo que precisa mudar”, entende.
A mentora em lideranças para mulheres Alê Freitas reconhece esse aprendizado na própria história. “Eu cresci vendo a minha mãe ter que dar conta de tudo e acreditei que era assim que funcionava, cuidando de todo mundo e colocando as próprias necessidades muitas vezes por último”, conta.
Para ela, porém, não se trata de responsabilizar as gerações anteriores, mas de perceber quais padrões ainda fazem sentido. Essa revisão também passou por uma pergunta difícil: quem ela é quando não está cuidando ou resolvendo problemas para alguém?
“Eu percebi que durante muito tempo associei meu valor à minha capacidade de fazer, resolver e entregar. Hoje estou aprendendo que eu sou muito mais do que isso. Posso descansar, pedir ajuda, não saber, não resolver e ainda continuar sendo uma pessoa competente e importante. Acho que essa foi uma das maiores mudanças para mim: eu não preciso ser indispensável para ter valor”, encerra.
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