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Segundo a psicologia, suas críticas aos outros podem revelar mais sobre você

Segundo a psicologia, suas críticas aos outros podem revelar mais sobre você

 

Entenda como crenças e experiências pessoais influenciam a maneira como interpretamos o comportamento alheio e conheça um método para questionar julgamentos automáticos

 

Você já se irritou com alguém por uma atitude que, depois de pensar melhor, talvez nem tivesse sido uma crítica? Para o autor Nir Eyal, situações assim mostram como nossas próprias crenças podem influenciar a maneira como interpretamos o comportamento das outras pessoas.

Um exemplo contado por Eyal envolve a própria mãe. No aniversário dela, ele enviou flores. Ela agradeceu, mas também comentou que parte do buquê estava um pouco murcha. Eyal reagiu imediatamente, interpretando a observação como ingratidão e dizendo, com sarcasmo, que nunca mais mandaria flores.

O episódio, segundo o autor, fez com que ele percebesse que não estava reagindo apenas ao comentário da mãe. Sua reação também estava relacionada à crença de que ela era uma pessoa muito crítica e difícil de agradar.

Essa ideia teria funcionado como um filtro: ele deu mais importância à observação negativa e deixou em segundo plano o fato de que ela havia agradecido pelo presente.

 

Por que nossas crenças influenciam a maneira como enxergamos os outros?

Quando criamos uma determinada imagem sobre alguém, podemos começar a interpretar novas situações de acordo com aquilo que já acreditamos.

Se uma pessoa é considerada “grossa”, por exemplo, uma resposta curta pode ser entendida como mais uma demonstração de grosseria. Se é vista como “desorganizada”, qualquer atraso pode parecer uma confirmação dessa característica.

Eyal relaciona esse mecanismo às ideias da pesquisadora Ellen Langer sobre o funcionamento automático da mente. Em determinadas situações, podemos deixar de observar o que está acontecendo naquele momento e passar a agir de acordo com conceitos que já temos sobre aquela pessoa.

Assim, uma expectativa pode acabar influenciando a própria relação. Esperar que alguém seja crítico pode fazer com que você reaja de maneira defensiva antes mesmo de saber qual era a intenção daquela pessoa.

 

Como questionar um julgamento automático?

Uma das ferramentas utilizadas por Eyal é o método The Work, desenvolvido pela autora Byron Katie. A prática propõe quatro perguntas para examinar uma crença que provoca desconforto.

1. É verdade?

A primeira pergunta é direta: “É verdade?”

No caso das flores, Eyal poderia questionar a ideia de que a mãe era “crítica demais e difícil de agradar”.

Ela havia agradecido pelo presente e depois observado que algumas flores estavam murchas. Isso necessariamente significava que ela estava sendo ingrata?

2. Você pode ter certeza absoluta?

A segunda pergunta vai além: “Você pode saber que isso é verdade com absoluta certeza?”

Mesmo quando acreditamos entender a intenção de alguém, não temos acesso direto ao que a outra pessoa está pensando.

No episódio contado por Eyal, ele não poderia ter certeza de que o comentário sobre as flores tinha a intenção de criticá-lo.

3. Como você reage quando acredita nesse pensamento?

A terceira pergunta desloca o foco para a própria reação.

Ao acreditar que a mãe era crítica e ingrata, Eyal percebeu que se sentia ofendido, ficava na defensiva e respondia com sarcasmo.

Ou seja, a crença não afetava apenas a maneira como ele enxergava a mãe. Ela também determinava como ele se comportava diante dela.

4. Quem você seria sem esse pensamento?

A última pergunta propõe imaginar a mesma situação sem aquela crença.

Sem a ideia de que a mãe era impossível de agradar, Eyal poderia simplesmente ter entendido o comentário como uma observação sobre as flores e mantido a conversa sem transformar a situação em um conflito.

O que é a técnica da inversão?

Depois das quatro perguntas, o método propõe experimentar diferentes interpretações por meio da chamada inversão.

No caso de Eyal, uma possibilidade seria inverter a ideia inicial: em vez de “minha mãe é crítica demais”, considerar “minha mãe não é crítica demais”.

Outra possibilidade seria direcionar a afirmação para si mesmo: “Eu sou crítico demais e difícil de agradar.”

A terceira seria: “Eu sou crítico demais comigo mesmo.”

O objetivo não é afirmar que uma dessas versões seja necessariamente verdadeira. A proposta é perceber que uma mesma situação pode ser interpretada de diferentes maneiras e que a primeira explicação que surge na cabeça não é necessariamente a única possível.

Como aplicar isso no dia a dia?

O método pode ser testado em situações cotidianas e de menor importância. Uma pessoa que demora para responder uma mensagem, um garçom que erra um pedido ou alguém que entra na sua frente no trânsito podem servir como exemplos.

Uma maneira de praticar é anotar uma situação que causou irritação e responder às quatro perguntas.

Também vale prestar atenção a palavras como “sempre”, “nunca”, “toda vez” e “típico”. Afirmações absolutas podem indicar que uma interpretação está sendo tratada como fato, mesmo quando existem outras possibilidades.

Outra estratégia é imaginar três explicações alternativas para o comportamento da outra pessoa. Em vez de assumir imediatamente uma intenção negativa, tente pensar em outras razões plausíveis para aquilo ter acontecido.

O que nossas críticas dizem sobre nós?

Questionar os próprios julgamentos não significa ignorar comportamentos inadequados ou aceitar qualquer atitude de outra pessoa. A ideia é separar o que realmente aconteceu da interpretação que fazemos sobre o acontecimento.

No caso das flores, Eyal percebeu que sua reação também estava ligada à necessidade de reconhecimento e ao medo de ser desaprovado.

Por isso, analisar aquilo que nos incomoda nos outros pode ser uma oportunidade de entender melhor nossas próprias expectativas, inseguranças e padrões de pensamento.

A principal lição é simples: antes de concluir que alguém foi grosseiro, ingrato ou mal-intencionado, vale perguntar se estamos reagindo apenas ao que a pessoa fez ou também àquilo que já acreditávamos sobre ela.

Mudar a forma como interpretamos uma situação não muda necessariamente o comportamento do outro, mas pode mudar a maneira como respondemos a ele — e, consequentemente, a própria relação.



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