A delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, da Polícia Civil de Minas Gerais, esposa de Renê da Silva Nogueira Júnior, assassino confesso do gari Laudemir de Souza Fernandes, foi afastada por 60 dias das funções para tratamento de saúde no Hospital da Polícia Civil. O afastamento teve início em 13 de agosto e foi publicado no Diário Oficial do Estado no último sábado (23/8).
O afastamento ocorre em meio ao caso envolvendo o marido da delegada, preso pelo assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes, ocorrido no dia 11 de agosto, no bairro Vista Alegre, Região Oeste de Belo Horizonte. O empresário confessou ter usado a arma particular da esposa sem o conhecimento dela, mas alegou que a morte teria sido um suposto "acidente".
Segundo o Diário Oficial, o afastamento foi concedido pelo Hospital da Polícia Civil, sob assinatura do diretor-geral da instituição e pode ter o prazo de dois meses prorrogado, conforme avaliação médica. O documento não especifica a condição de saúde da delegada. Paralelamente, Ana Paula responde a processo administrativo instaurado pela Corregedoria, já que a arma usada no crime é de uso pessoal dela.
Antes do afastamento, Ana Paula estava lotada na Casa da Mulher Mineira, unidade policial inaugurada em 2022 voltada ao atendimento de mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Ela também é autora de livros sobre violência doméstica e políticas públicas de enfrentamento e já participou de grupos de trabalho relacionados à prevenção e combate à violência contra mulheres.
À reportagem, a PCMG informou que não vai se posicionar sobre o afastamento e que todas as informações foram disponibilizadas no Diário Oficial. Em relação à investigação criminal, a corporação afirmou que o inquérito ainda está em andamento.
Como foi o crime?
- Equipe de coleta de lixo trabalhava na Rua Modestina de Souza, Bairro Vista Alegre, em BH, na manhã do dia 11 de agosto.
- Motorista do caminhão, Eledias Aparecida Rodrigues, 42 anos, manobra para liberar passagem, após ver uma fila de carros se formar atrás dela.
- Eledias e os garis acenam para Renê da Silva, que dirigia um carro BYD, permitindo a passagem.
- O suspeito abaixa a janela e grita que, caso encostasse em seu veículo, ele iria "dar um tiro na cara" da condutora.
- Na sequência, ele segue adiante, estaciona, sai do carro armado; derruba o carregador, recolhe e engatilha pistola, segundo o registro policial.
- Ele faz um disparo que atinge Laudemir no abdômen.
- O gari é levado ao Hospital Santa Rita, em Contagem, na Grande BH, mas morre por hemorragia interna.
- No local, PM recolhe projétil intacto de munição calibre .380.
- Horas após o crime, a PM localiza e prende Renê no estacionamento de academia na Av. Raja Gabaglia.
- Flagrante convertido em prisão preventiva em audiência de custódia, no dia 13 de agosto, a pedido do Ministério Público de Minas Gerais.
- Renê está preso no Presídio de Caeté, Grande BH
Quem é o suspeito?
- Renê da Silva Nogueira Júnior, 47 anos;
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Colaborador em empresa de alimentos, foi desligado após repercussão;
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Casado com a delegada Ana Paula Balbino Nogueira (PCMG);
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Descrevia a si mesmo como “cristão, esposo, pai e patriota”;
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Tem outros registros policiais em São Paulo (lesão corporal grave contra uma mulher) e Rio de Janeiro (lesão corporal contra ex-companheira, ameaça contra ex-sogra e envolvimento em homicídio culposo);
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Nega ter antecedentes criminais, diz que só responde a processo por luxação no pé da ex-esposa.
O que acontece com a esposa do suspeito?
- Logo após ser abordado por uma equipe da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) o suspeito afirmou que a mulher dele é delegada;
- Desde o crime, Ana Paula Balbino Nogueira, identificada como a esposa do suspeito de homicídio continuou trabalhando;
- A delegada foi ouvida pela Corregedoria da corporação onde trabalha;
- As armas de serviço e pessoal foram apreendidas e estão sendo analisadas nos inquéritos administrativos e criminal;
- A PCMG afirma que, até o momento, não há informações que incluam a delegada no homicídio do gari.
O que dizem as investigações até o momento?
A arma utilizada no homicídio, uma pistola calibre .380, pertence à delegada da Polícia Civil Ana Paula Balbino Nogueira, esposa de Renê, e foi apreendida na residência da servidora no mesmo dia do crime. Os exames periciais, divulgados na sexta-feira (15/8) pela corporação, apontaram a compatibilidade entre a arma de Ana Paula e as munições usadas no assassinato de Laudemir.
Na noite de segunda, após a prisão de Renê, a servidora, que chefia a Delegacia de Combate à Violência Doméstica em Nova Lima, na Grande BH, afirmou à Polícia Civil que o marido não tinha acesso às armas e que não tinha informações sobre o crime. A corporação instaurou procedimento administrativo disciplinar correcional para apurar eventuais responsabilidades.
Na ocasião, a corporação acrescentou ainda que o fato de a arma estar no nome da servidora do governo de Minas Gerais "não necessariamente" a coloca como coautora ou partícipe da ocorrência. A participação só será indicada caso fique constatado que a mulher entregou o armamento para o marido.
Um dos pontos centrais da investigação é o horário de chegada de Renê à empresa onde trabalhava em Betim, na Grande BH. Câmeras de segurança da empresa inicialmente indicaram que ele teria chegado às 9h18, mas a perícia da Polícia Civil afirma que o registro correto seria 9h38, pouco mais de meia hora após um circuito de segurança na rua capturar o momento em que o gari foi baleado no Bairro Vista Alegre, às 9h07.
Na quinta-feira (14/8), a Justiça autorizou a quebra de sigilo dos dados telefônicos e telemáticos de Renê, oficiados à empresa BYD do Brasil, montadora do carro do suspeito visto no local do crime, e a operadora Claro. O objetivo é levantar as rotas percorridas por Renê no dia e nos horários próximos do momento do homicídio.