Fenômeno é estudado pela cronobiologia e se evidência nas segundas-feiras por motivos de oscilações fisiológicas, metabólicas e imunológicas
Virgínia Pedrosa - Os casos de infarto aumentam 11% às segundas-feiras, conforme estudo da Universidade de Lund, na Suécia. E a incidência maior no dia tem explicação: a combinação entre o relógio biológico e as mudanças bruscas na rotina durante o fim de semana.
O fenômeno é associado ao chamado ritmo circaceptano (ou Variação Circasseptano), um ciclo biológico que se repete aproximadamente a cada sete dias. Segundo pesquisadores, o corpo humano possui um relógio biológico que ajuda a regular diversas funções, como o sono, a produção de hormônios e a frequência cardíaca.
Durante o fim de semana, porém, é comum alterar os horários de sono, alimentação e atividades físicas, além de aumentar o consumo de bebidas alcoólicas. Na segunda-feira, a rotina muda novamente de forma abrupta, já que é preciso acordar mais cedo, retomar compromissos e atividades profissionais e, muitas vezes, lidar com uma maior carga de estresse.
Justamente essas mudanças podem provocar alterações nos níveis de hormônios, como cortisol e adrenalina, que estão relacionados ao aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. Essa resposta ocorre naturalmente no organismo.
Mas, em pessoas que já apresentam fatores de risco cardiovascular - como tabagismo, sedentarismo, hipertensão, diabetes ou histórico familiar de doenças cardíacas - mudanças bruscas na rotina e situações de estresse podem contribuir para desencadear eventos cardiovasculares.
Como esse fenômeno foi identificado?
A relação entre mudanças na rotina e o aumento de eventos cardiovasculares começou a ser observada em diferentes estudos. Um dos exemplos analisados por pesquisadores é a transição para o horário de verão. Nos períodos em que as pessoas perdem cerca de uma hora de sono, estudos identificaram um aumento temporário nos casos de infarto nos dias seguintes. Quando os relógios retornam ao horário anterior, esse pico tende a diminuir.
A hipótese é que a alteração repentina no ciclo de sono e vigília provoque uma espécie de estresse para o organismo, afetando mecanismos relacionados à pressão arterial, à frequência cardíaca e à liberação de hormônios.
O fenômeno, porém, não estaria restrito às segundas-feiras. O mesmo estudo da Universidade de Lund, realizado entre 2018 e 2019, identificou aumento de casos de infarto também durante períodos associados a datas comemorativas, como Natal, Ano-Novo e campeonatos esportivos.
Essas ocasiões podem envolver mudanças na rotina, privação de sono, maior consumo de álcool e alimentos, além de uma carga emocional mais intensa. Expectativas em relação às celebrações, preocupações financeiras, conflitos familiares e outras situações de estresse podem contribuir para alterações no funcionamento do sistema cardiovascular.
Assim, a chamada “segunda-feira do infarto” não significa que o primeiro dia útil da semana, por si só, provoque ataques cardíacos. A hipótese é que a combinação entre alterações no relógio biológico, mudanças de rotina, estresse e fatores de risco preexistentes possa aumentar a vulnerabilidade cardiovascular em determinados períodos.
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