Banco do Paraguai entra em colapso, deixa milhões de clientes sem acesso ao dinheiro e provoca crise política no país
Ueno Bank teve operações suspensas após o Banco Central identificar grave insuficiência de capital. Instituição administrava milhões de dólares em recursos públicos, e o escândalo envolve suspeitas de irregularidades financeiras, executivos investigados e questionamentos sobre ligações com o governo
Uma grave crise financeira abalou o Paraguai após o Banco Central do país determinar a intervenção no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras privadas paraguaias. A decisão, anunciada em 3 de novembro de 2026, deixou aproximadamente 3 milhões de clientes apreensivos e provocou uma onda de questionamentos sobre a segurança dos depósitos, a fiscalização bancária e as relações entre empresários e autoridades políticas.
A instituição, que cresceu rapidamente no mercado financeiro paraguaio e conquistou milhões de usuários com seus serviços digitais, entrou em um processo especial de resolução depois que o regulador identificou uma situação crítica em seus indicadores de solvência.
O caso ganhou repercussão internacional porque o banco também administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos, incluindo valores ligados ao sistema previdenciário do Paraguai.
Além dos problemas financeiros, a crise provocou mudanças no comando do Banco Central, investigações criminais, prisões de executivos e pedidos de impeachment contra o presidente Santiago Peña.
1. O que aconteceu com o Ueno Bank?
O Banco Central do Paraguai decidiu iniciar um procedimento de resolução do Ueno Bank depois de identificar que a instituição não apresentava capital suficiente para cumprir as exigências regulatórias.
A medida foi aprovada por unanimidade pela diretoria do Banco Central em 2 de novembro e anunciada oficialmente no dia seguinte.
Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, o índice de solvência do banco chegou a 5,56%, enquanto o mínimo exigido pela regulamentação paraguaia é de 12%.
Esse indicador representa a capacidade de uma instituição financeira de absorver perdas e manter suas operações com segurança.
Com a deterioração dos números, o regulador determinou a suspensão dos serviços e assumiu o controle do processo de reorganização da instituição.
A decisão provocou dificuldades imediatas para os correntistas, que encontraram problemas para acessar aplicativos, cartões, contas e outros serviços bancários.
2. Quase 3 milhões de clientes foram afetados
Um dos aspectos mais preocupantes da crise é a quantidade de pessoas que utilizavam os serviços da instituição.
O Ueno Bank informou possuir aproximadamente 2,9 milhões de clientes, número equivalente a uma parcela expressiva da população adulta do Paraguai.
A interrupção das operações provocou preocupação entre correntistas que mantinham economias, investimentos e recursos utilizados no cotidiano financeiro.
Clientes foram até agências em busca de explicações e encontraram unidades fechadas, enquanto outros relataram dificuldades para movimentar dinheiro por meio dos canais digitais.
A situação também atingiu pessoas que utilizavam o banco para receber pagamentos e benefícios.
3. Banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos
Outro ponto que ampliou a gravidade do episódio foi a participação do dinheiro público nas operações do Ueno Bank.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, a instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos de órgãos públicos paraguaios.
Entre os valores estavam recursos relacionados ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo sistema de aposentadorias e benefícios do país.
A exposição do dinheiro público provocou questionamentos sobre os critérios utilizados pelas instituições governamentais para escolher bancos e concentrar recursos financeiros.
O caso também despertou preocupação com aproximadamente 32 mil aposentados que recebiam seus benefícios por meio da instituição.
As autoridades paraguaias informaram que os pagamentos das aposentadorias continuariam normalmente, com a transferência dos beneficiários para outra instituição financeira.
4. Por que o banco entrou em crise?
As investigações apontaram problemas na estrutura financeira e na concessão de empréstimos da instituição.
Entre as irregularidades identificadas pelo Banco Central estão:
- Insuficiência de capital para cumprir as exigências regulatórias.
- Problemas na avaliação dos riscos de crédito.
- Inconsistências nas informações financeiras utilizadas para aprovar empréstimos.
- Operações de crédito envolvendo empresas relacionadas aos controladores do banco.
- Questionamentos sobre a qualidade dos ativos e a situação patrimonial da instituição.
Um dos pontos mais delicados envolve empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo empresarial controlador do Ueno.
Esse tipo de operação exige fiscalização rigorosa porque pode criar conflitos de interesse e permitir que recursos de clientes sejam direcionados a negócios relacionados aos próprios proprietários da instituição.
O Banco Central informou que já havia alertado a instituição sobre essas operações.
5. Investigação aponta suspeita de operação simulada de US$ 74 milhões
Um dos desdobramentos mais graves do caso envolve uma operação financeira que passou a ser investigada pelo Ministério Público paraguaio.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, investigadores suspeitam que o banco tenha simulado a venda de uma carteira de créditos avaliada em aproximadamente US$ 74,4 milhões.
A operação teria envolvido uma empresa chamada Vinanzas S.A., que, segundo os dados apresentados na investigação, possuía inicialmente recursos de aproximadamente US$ 93,8 mil.
A suspeita é de que a empresa tenha recebido aportes superiores a US$ 76 milhões, financiados por empréstimos do próprio banco a companhias relacionadas ao Grupo Vázquez.
De acordo com a investigação, a estrutura da operação poderia ter sido utilizada para ocultar a real situação patrimonial da instituição.
O caso ainda depende da apuração das autoridades. As suspeitas não devem ser tratadas como condenações definitivas dos envolvidos.
6. Quem é o empresário ligado ao banco?
O Ueno Bank pertence ao Grupo Vázquez, conglomerado empresarial liderado pelo empresário paraguaio Federico Miguel Vázquez.
A instituição ganhou espaço no mercado financeiro por meio de uma estratégia de expansão acelerada, com forte presença digital, benefícios comerciais e facilidades para abertura de contas.
Em poucos anos, conquistou milhões de usuários e se tornou uma das marcas mais conhecidas do setor bancário paraguaio.
O crescimento também foi acompanhado por questionamentos sobre a concentração de recursos públicos e a concessão de empréstimos a empresas relacionadas ao grupo controlador.
7. Ligação com o presidente Santiago Peña aumenta pressão política
A crise ganhou uma dimensão ainda maior por causa das relações empresariais anteriores entre o presidente paraguaio Santiago Peña e o Grupo Vázquez.
Peña foi sócio do conglomerado controlador do banco até março de 2025, antes de deixar sua participação.
Outro ponto que provocou questionamentos foi a nomeação de Carlos Carvallo para comandar o Banco Central. Carvallo havia liderado uma instituição anterior ligada ao grupo empresarial.
As relações levantaram suspeitas de possíveis conflitos de interesse e passaram a ser exploradas por integrantes da oposição.
O presidente negou que eventuais irregularidades devam ficar sem responsabilização e defendeu a apuração dos fatos.
A crise também levou a pedidos de impeachment apresentados por parlamentares oposicionistas, que questionam a administração dos recursos públicos e a relação entre o governo e o grupo empresarial.
8. Presidente do Banco Central renuncia em meio ao escândalo
O episódio também atingiu diretamente a autoridade monetária do Paraguai.
Carlos Carvallo renunciou à presidência do Banco Central em meio à crise.
A saída ocorreu depois que a instituição determinou a intervenção no Ueno Bank e passou a enfrentar questionamentos sobre a fiscalização e os alertas anteriores relacionados à situação financeira do banco.
A integrante da diretoria Liana Caballero assumiu interinamente o comando da autoridade monetária.
A mudança aumentou a pressão sobre o sistema de fiscalização financeira do país e levantou dúvidas sobre como uma instituição com milhões de clientes conseguiu chegar a uma situação tão delicada.
9. Executivos foram presos durante investigação
A crise também passou a ser investigada criminalmente.
O Ministério Público paraguaio determinou prisões de executivos e pessoas ligadas à instituição, em uma apuração sobre possíveis irregularidades financeiras e outros delitos.
Entre os nomes mencionados nas notícias internacionais estão o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale, e o executivo Federico Miguel Vázquez Villasanti.
A investigação busca esclarecer a participação dos envolvidos nas operações questionadas e identificar eventuais responsabilidades.
As prisões e investigações não representam, por si só, uma condenação judicial.
10. Clientes vão conseguir recuperar o dinheiro?
Uma das principais preocupações dos correntistas é saber quando poderão recuperar os valores depositados no banco.
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), mecanismo criado para proteger os clientes em situações de insolvência bancária.
A cobertura legal chega a 75 salários mínimos, equivalente a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis por depositante e instituição financeira.
Na conversão divulgada pelas autoridades e pela imprensa, o valor corresponde a aproximadamente US$ 38 mil.
Isso significa que a maior parte dos pequenos depositantes está dentro do limite de proteção previsto na legislação.
O Banco Central também anunciou um pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis para os clientes elegíveis, equivalente a aproximadamente US$ 1,6 mil.
Em 5 de novembro, foi divulgada a primeira etapa dos pagamentos, destinada a clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis e sem dívidas com o banco, desde que possuam outra conta ativa em instituição financeira paraguaia.
Os próximos grupos deverão ser anunciados conforme o andamento do procedimento.
Já os clientes com valores superiores ao limite garantido enfrentam maior incerteza sobre a recuperação integral dos recursos.
11. Crise pode afetar a imagem econômica do Paraguai
O caso também representa um desafio para a imagem internacional do Paraguai.
Nos últimos anos, o país passou a atrair investidores interessados em impostos competitivos, estabilidade macroeconômica e oportunidades de negócios.
A crise de uma instituição que chegou a reunir quase 3 milhões de clientes, além de administrar recursos públicos expressivos, colocou em discussão a qualidade da fiscalização bancária e a segurança do ambiente financeiro.
Especialistas passaram a questionar se o crescimento acelerado do Ueno foi acompanhado por mecanismos adequados de controle e gestão de riscos.
O Banco Central, por sua vez, sustenta que a intervenção é uma medida necessária para proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro.
12. O que acontece agora?
O processo de resolução deverá permitir que as autoridades examinem os ativos, as dívidas e as obrigações da instituição.
Entre as principais medidas estão:
- Identificar a real situação patrimonial do banco.
- Preservar os ativos disponíveis.
- Organizar os pagamentos aos depositantes protegidos pelo fundo garantidor.
- Apurar as operações financeiras suspeitas.
- Investigar a participação de executivos e empresas relacionadas.
- Avaliar os impactos sobre os recursos públicos.
- Buscar soluções para reduzir os prejuízos aos clientes.
A crise também deverá continuar repercutindo no cenário político paraguaio, especialmente diante dos pedidos de responsabilização apresentados pela oposição.
Crise bancária no Paraguai: um caso que ultrapassou o setor financeiro
A intervenção no Ueno Bank deixou de ser apenas um problema de uma instituição financeira e se transformou em uma crise de grandes proporções para o Paraguai.
O episódio reúne preocupações com as economias de milhões de clientes, recursos públicos, aposentadorias, fiscalização bancária e possíveis conflitos de interesse envolvendo empresários e autoridades.
Enquanto o Banco Central tenta organizar a recuperação dos valores e preservar os depositantes, as investigações deverão esclarecer como uma instituição de crescimento tão acelerado chegou a uma situação de insuficiência financeira tão grave.
O desfecho poderá ter consequências importantes não apenas para os clientes do Ueno Bank, mas também para a confiança no sistema financeiro e nas instituições paraguaias.




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